Onde está o caruru? Cosme e Damião no Rio de Janeiro: tradição baiana em terra carioca

Em Salvador, no dia 27 de setembro, comemora-se com fervor São Cosme e São Damião, padroeiros dos cirurgiões, crianças, médicos e farmacêuticos. A data é marcada pela distribuição de doces e pelo tradicional caruru, uma iguaria feita à base de quiabo, que é oferecida aos santos e compartilhada com a comunidade. Na capital baiana, é um dia de celebração das raízes africanas e da fé, onde as mesas fartas de comidas de terreiro reforçam a importância da união e do axé.

Acervo pessoal: Heide Ane
Entretanto, para quem está fora da Bahia, como no Rio de Janeiro, a tradição parece não ter o mesmo peso. Ao passar o dia dos santos na cidade maravilhosa, percebi o contraste: não havia caruru nem celebrações tão evidentes. Isadora Moreira, uma amiga carioca, revelou que nunca experimentou a iguaria e não conhecia essa parte da tradição. "Aqui no Rio, o mais comum é a distribuição de saquinhos de doces para as crianças, mas essa questão do caruru não é algo que eu tinha ouvido falar", comenta.

Sua mãe, Joccih Rodrigues, reforça essa percepção. "Sempre associei Cosme e Damião com os doces que são distribuídos no dia 27 de setembro, mas nunca participei de um caruru. É interessante ver como a celebração ganha novas formas em diferentes regiões do Brasil. Talvez seja uma oportunidade para trazermos mais dessa tradição baiana para cá", diz.

Mas por que, afinal, o caruru faz parte dessas celebrações? Segundo a historiadora e especialista em cultura afro-brasileira, Carla Gomes, a tradição de servir o caruru está ligada ao sincretismo religioso no Brasil. "Cosme e Damião, além de serem santos católicos, são reverenciados no Candomblé como os Ibejis, divindades gêmeas protetoras das crianças. O caruru, prato típico da culinária afro-brasileira, é oferecido como uma forma de agradecimento e pedido de proteção. O ritual de preparar e compartilhar o caruru simboliza a comunhão e a renovação das forças espirituais", explica.

Cada região do Brasil celebra Cosme e Damião de formas distintas, refletindo a diversidade cultural do país. Enquanto na Bahia o caruru é o centro das atenções, no Rio de Janeiro a tradição dos doces parece predominar. Fica o convite para que mais cariocas descubram o sabor e o significado profundo dessa tradição baiana, perpetuando a memória e a devoção a esses santos de fé e axé.

Heide Anne.

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